| O que Nós Vemos
O que nós vemos
das cousas são as cousas.
Por que veríamos
nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que
ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir
são ver e ouvir?
O essencial
é saber ver,
Saber ver sem
estar a pensar,
Saber ver quando
se vê,
E nem pensar
quando se vê
Nem ver quando
se pensa.
Mas isso (tristes
de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige
um estudo profundo,
Uma aprendizagem
de desaprender
E uma seqüestração
na liberdade daquele convento
De que os poetas
dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores
as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal
as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores
senão flores.
Alberto Caeiro
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